Definição, incidência e causas da violência no Reino Unido
Anna Hutchinson
No Reino Unido a violência nas escolas é quase sempre designada por bullying (maus tratos entre iguais). Estes dois termos estão fortemente relacionados. Ambos se referem a um acto que causa danos físicos ou psicológicos, contudo o bullying inclui a repetição destes actos.
Tem havido um aumento do interesse e da investigação nesta área durante a ultima década o que levou a uma diversificação do tipo de comportamentos incluídos sob a designação de bullying. Uma definição de bullying largamente utilizada e inclusiva é apresentada por Olweus (1993) e ligeiramente ampliada por Whitney and Smith (1993), especificando que bullying:
A própria definição de bullying está a tornar-se problemática. O resultado de um conflito para um aluno (tanto externamente, i.e. a reacção da escola, dos pais, etc. como internamente, i.e. efeitos na auto-estima, auto-conceito, etc.) é bastante determinado pela identificação do comportamento como "bullying e pela resposta que lhe dá enquanto tal (ver Glover et al., 2000).
Actualmente a definição parece ser dependente da fonte. Por exemplo, a investigação sugere que os professores são menos susceptíveis de identificar comportamentos como bullying quando a agressão diz respeito a dinheiro, vestuário, inteligência e aptidão desportiva do que quando diz respeito à raça, religião ou às dificuldades de aprendizagem (Glover et al., 2001). Este problema também se aplica ao bullying relacionado com a homofobia, a qual parece ter vindo a aumentar nas escolas (Rivers, 1997).
Alguns comportamentos não têm sido identificados tão eficientemente como outros devido à falta de consenso no que diz respeito à definição de bullying.
A definição de bullying "indirecto" também está a ser redefinida no Reino Unido no que diz respeito às novas tecnologias. A ideia que bullying ocorre na escola e à volta dela, através de confronto físico ou verbal, teve que ser revista devido ao grande aumento do bullying através de telemóveis e da Internet. Estas tecnologias estão a permitir que o bullying ocorra sem as tradicionais restrições espaciais e temporais
(ver www.bullying.co.uk/children/mobile_phone.htm e www.successunlimited.co.uk/related/cyber.htm).
O bullying é definido de várias formas na literatura do Reino Unido. É importante estabelecer um equilíbrio entre a especificidade excessiva, e assim não considerar os conflitos não abrangidos pela definição, e uma definição demasiado geral, que poderia permitir o enquadramento de quase todas as formas de interacção num contexto agressivo.
A investigação sugere que bullying faz parte da vida escolar no Reino Unido (Tyler, 1998). Actualmente há uma grande variação no número de alunos que vivem situações de bullying em algum momento da sua vida escolar; com percentagens que vão de 37% (Elsea, 2001) até 80% (Fontaine, 1991), mas que são consistentemente altas. Há, segundo a literatura, um acordo de que aproximadamente 10% dos alunos experienciam situações de bullying, severas e regulares, em algum momento da sua vida escolar (ver também McDougall 1999). Parece haver pouca diferença entre escolas rurais e urbanas no que diz respeito à incidência do bullying, se bem que os professores, em qualquer das áreas, refiram que parece haver um aumento do número de casos de maus tratos entre iguais e de problemas comportamentais dentro das escolas.
(ver www.guardian.co.uk/Archive/Article/0,4273,4261480,00.html).
Parece haver uma maior incidência de maus tratos verbais do que físicos, e tem havido um aumento nas formas indirectas de maus tratos entre pares devido à crescente utilização de telemóveis e da Internet com essa intenção -
(ver por exemplo: www.successunlimited.co.uk/related/mobile.htm).
A investigação refere, também, uma maior incidência de comportamentos de maus tratos entre iguais relatados por alunos em escolas primárias (Arora, 1999). Todavia, este facto pode atribuir-se à crescente influencia do grupo de pares à medida que se avança na idade (i.e. 'denunciar' torna-se cada vez menos tolerado pelos pares) e, possivelmente, a uma diminuição das expectativas relativamente ao interesse da denúncia para a resolução dos problemas (McDougall, 1999).
Há ainda uma diferença na incidência dos tipos de maus tratos entre iguais em função do género. Os rapazes tendem a ser vítimas e perpetradores das formas mais violentas de maus tratos, enquanto as raparigas são alvos preferenciais das formas verbais de maus tratos. Contudo, esta questão também está relacionada com a idade e, a linha separadora só se verifica ao nível do ensino secundário.
Os maus tratos entre iguais são uma realidade nas escolas do Reino Unido. Certos grupos e algumas idades parecem mais susceptíveis de experienciar ou de relatar comportamentos de maus tratos; desse modo a incidência, enquanto definição, é muito dependente da especificidade da fonte.
As características de uma vítima
Muita da investigação recente no Reino Unido sobre as causas do bullying, centrou-se na marginalização e na vulnerabilidade das vitimas.
A própria vulnerabilidade parece tornar os alunos vitimas de maus tratos mais susceptíveis à vitimização. Uma criança com algo de claramente diferente de uma "norma" estrita do grupo de pares é mais vulnerável e, por isso, possui um risco acrescido de ser vítima de maus tratos.
«...é uma triste conclusão a de que, as vítimas de maus tratos são os alunos ansiosos, deprimidos, com baixa auto-estima, e os que sempre têm de enfrentar problemas de desvantagem física, psicológica e social (Leff, 1999).
Assim, as causas bullying podem ser infindáveis mas de uma forma geral incluem, limitações psicológicas, condições familiares desfavoráveis, aparência, capacidades académicas e desportivas, estatuto sócio-económico da família, raça, religião, e grau de desenvolvimento sexual (para mais exemplos ver Randall, 1996).
Quem provoca os maus tratos?
A investigação sobre as causas do bullying, na perspectiva do "agressor" também se começou a orientar para a vulnerabilidade. Muitos investigadores têm vindo a sugerir que os agressores são eles próprios vitimas de maus tratos e que podem estar a repetir um padrão de comportamento de abuso, aprendido. Também foi sugerido que eles podem estar a projectar nos outros a insatisfação consigo mesmos e a sua raiva (ver Colvin et al., 1998).
A investigação começou a centrar-se no ambiente escolar e no modo como este factor também pode aumentar ou diminuir as oportunidades de bullying, enquanto causa indirecta. Por exemplo, Randall (1996) demonstrou que há maior probabilidade de ocorrerem problemas comportamentais quando existe um conflito de culturas entre a escola e a comunidade. Esta abordagem da escola como um todo tem-se revelado muito importante na identificação das causas do bullying e no desenvolvimento de programas de intervenção para o combater (Tyler, 1998).
Bibliografia
Arora, C., M., J., (1999), Levels of bullying measured by Britishschools using the 'Life in School' checklist. Pastoral Care inEducation, 17, 1: pp.17-22
Colvin, G., Tobin, T., Beard, K., Hagan., S, Sprague., J., (1998),The school bully: assessing the problem, developing interventions, andfuture research directions. Journal of behavioural education, 8, 3:pp.293- 320.
Elslea, M., (2001), School Bullying: Severity, Distress and Coping.British Psychological Society Centenary Annual Conference, Glasgow.
Fontaine, J., L., (1991), Bullying: The child's view - An analysisof telephone calls about bullying. London: Calouste GulbenkianFoundation.
Leff, S., (1999), Bullied children are picked on for their vulnerability. British Medical Journal, Vol. 23.
Olweus, D., (1993), Bullying in school: What we know and what we can do. Oxford: Blackwell.
Randall, P., (1996), A community Approach to Bullying. Stoke on Trent: Trentham Books.
Rivers, I., (1997), Lesbian, gay and bisexual development: theory,research and social issues. Journal of community and applied socialpsychology, 7, 5: pp.329-344
Tyler, K, (1998), A comparison of the No Blame approach to bullyingand the ecosystemic approach to changing problem behaviour in schools.Pastoral Care in Education, 16, 1: Mar, pp.26-32.
Whitney, I., & Smith, P.K., (1993), A survey of the nature andextent of bullying in junior/middle and secondary schools, EducationalResearch, 35, 1: pp.3-25.
WWW
The UK charity Bullying Online gives information and advice on managing mobile phone bullying and cyberstalking.
These links take you to Success Unlimited, a UK site which focuseson bullying in all sectors of society. The site offers in-depth advice,and more links, about cyber and mobile phone bullying.
Article describing a poll of teachers' opinions regarding problem behaviour and bullying prevalence in UK schools.